
Recordo a entrada vigiada por
parras ressequidas, cobrindo de sombras os calhaus rolados, enlaçadas no
ferro-ferro das latadas, desenhando intrincadas figuras geométricas nas irregularidades das raízes que moviam a calçada. A desnatadeira que
rangia um pouco mais acima, e a Isabel esperando pelos fregueses produtores de
leite para lhes apontar a colheita e recolher o produto das vacas, tratadas a
erva e palhada de cana ou a bananeiras picadas com rolão… Dura vida a do
agricultor!... Aquele local é hoje apenas sombra da memória. A memória que ecoa
no que resta da velha casa são a voz do mestre André; a gargalhada do Eduardo Lancha,
as disputas dos irmãos Parrucas; o choro do paquete, que descalço, percorria a vila e distribuía encomendas.
Tantas vozes silenciadas pelo esquecimento da modernidade que se abateu sobre o
antigo prédio e fazenda, que crescia desde a estrada do aeroporto até ao norte
da casa enorme e robusta nos seus cunhais de basalto que angulavam as suas
grossas paredes. Memórias apenas que há muito entraram no álbum das recordações,
ou embarcaram no das saudades da emigração.
Da capela, onde em pequeno estive
numa missa do padre Gabriel, acompanhado
pelo Francisco, o sacristão, nada resta,
nem sei que destino teve o seu acervo. Parte da quinta foi devorada nas
diversas ampliações do aeroporto, tal como as quintas a sul, apenas resta parte
do velho edifício, onde se amontoam carros de uma agência de aluguer. Ainda
resistem um ou dois plátanos, últimas testemunhas do choro sufocado da
Olivinha, que na dor esquecida dos pés descalços, vivia a angústia da mãe que
tem os filhos na guerra. Nunca lhe vi uma lágrima no sorridente gesto, apesar
da carga que sempre transportava à cabeça, aliviada pela sogra enrodilhada em
que pousava a enorme lata de chapa zincada que levava cheia, desde as Eiras,
todos os dias, e depositava, intacta, no armazém das natas da fábrica.
Olivinha vivia numa casa térrea
no sítio do Janeiro, perto do Estiqueta. Acedia-se à casinha, por um braço de
vereda calcetado a pedra mal lascada, com pouco mais de meio metro. Ela, mulher
forte, de corpo masculinizado, com pernas duras das descidas e subidas do
empedrado destino, que mais pareciam duas colunas gregas, não perdera os traços feminis, nem a graça de garça, e, mesmo
carregada, o seu pescoço fino e alto aprumava-se de uma elegância que só as
mulheres sabem ter. Era uma daquelas mulheres de quem até Hércules teria
respeito e veneração.
Lembro-me dela descendo do posto
das Eiras. Assim se chamava o local em que, logo de madrugada, se desnatava o leite, ficando as natas para a
Companhia e o soro para casa. Era um local sombrio, onde uma velha máquina,
rodando, separava a gordura do leite que caia na enorme lata, companheira e confidente
de Olivinha.
Nunca lhe conheci sapatos nos
pés. Sai da ilha e regressei e fui encontrá-la, muitos anos depois, cabelos
brancos, apanhados na nuca, à sombra das bananeiras, à entrada da vereda, mais
larga, de casa, já o caminho do Janeiro alcatroado, assim se diz por aquelas
bandas, bordando de sorrisos uma toalha de linho cru. Os filhos há muito tinham
regressado da guerra, e organizado as suas vidas. Já era avó e bisavó e ela
calçava, agora, umas sapatilhas. Estava viúva de mestre Pedro. Ainda se lembrava
de mim. Tinha uma memória incrível. E entre conversa e brincadeira disse que eu
em pequeno era um malandreco e que se recordava da missa celebrada na capela de
S. Sebastião, pelo padre Gabriel. Disse-me, e eu nem me recordava, que fora eu
que lera a epístola. Na verdade pouco recordo da capela, da sua decoração, se havia
santo ou se o santo tinha muitas setas, se seriam de prata ou de madeira… O que
importa é que a capela desapareceu, como tantas outras pela ilha. É pena… É
preciso manter acesa a chama da memória do que fomos para podermos ser o que
queremos.
Depois, raramente a via. Quando
em visita à terra que me viu nascer, descia o caminho do Janeiro, às vezes
ainda parava à entrada da vereda, mas dela, nem vulto. A casa parecia
abandonada e as silvas começavam a tomar conta do terreno, até as figueiras
tinham morrido ou sucumbido à sede. Vim a saber que, em idade mais avançada, se
recolheu em casa de um dos filhos e lá passou o final da sua vida, bem menos
agreste, sem latas de nata, sem dores nos pés martirizados pelo subir e descer
do caminho.
Hoje, quando desci naquela
estrada, e ao chegar à Laurindinha, soltou-se-me da memória a imagem elegante
da Olivinha, levando à cabeça, não o peso da lata de natas, mas a elegância
duma mulher única que conheceu aquele caminho, e em cada pedra da calçada
deixou uma sílaba de poesia, caminhando para uma quinta que apenas existe na
memória, mas em cuja lata cabe toda a saudade.
imagem : GoogleEarth
imagem : GoogleEarth
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