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06/03/2015

GUARDADOR DE CABRAS


Assim é a tarde dos primeiros dias de março: Uma guerra entre o passado e o futuro; entre o dia e a noite, entre a terra e o mar, mas, afinal, a praia é território comum. O horizonte é a cama do dia e o despertador da noite... E entre esta aparente dicotomia teimosa o dourado reina indiferente às lutas e une os opostos.
A luz dourada abre a esperança de um novo dia, mesmo que a noite seja o seu berço, porque a madrugada será o seu regaço.
A tarde cai devagarinho, coada pelas ramadas de nuvens que já nem prometem chuva. Ali, onde o mar acaba no começo da praia, entre os Socorridos e o Cabo Girão, o sol brinca, qual maroto buzico, dourado por entre as videiras podadas e os caniços embandeirados de estio. E dardejando os cabos negros da artificialização da noite, repele-os de faíscas de irritação por aqueles cortarem o horizonte e poluírem a paisagem de negritude. No canteiro o perfume tardio das rosas amadurece  por entre o esquecimento da poda tardia que não chegou com a lua cheia, mas que chegará com promessa de novos perfumes primaveris.
"Por janeiro fora cresce uma hora e quem bem contar em março mais que uma vai achar"- Diz o povo e repetia sem conta o João Valhaco.
O Sr. João era um homem de negócios. Vestia de forma diferente. E o seu passado tinha  sido viajado pelas Antilhas. Estivera no Curaçau, mas naquela tarde estava ali, observando, não o Cabo Girão, mas as rochas do outro lado da Ribeira do Moreno, onde agora crescem acácias e silvados, e as veredas  dessa memória que eram  verdadeiras estradas de gente e carga, desapareceram no aroma fátuo da fúria civilizacional. Estou ali com ele, encostado às varas do curral, onde um chibarrinho, que já reinava,  tentava cobrir  a cabra branca que a minha mãe mandara levar ao cabrito, e ele como homem experiente olhava a abelhinha verde e preta do Marculino trepando os degraus do caminho das Levadas.
- Aquilo não foi construído para carros, rapaz, - Dizia com o cigarro Santa Maria preço ao beiço, como se uma cola invisível o segurasse no canto já murcho do tempo e das palavras amargas que nunca foram ditas.
- Então, senhor João, para que foi calcetado aquele caminho?
- Nunca viste o Gouveia passar com as juntas de bois? Nunca o ouviste dizer "chega à direita amarela? Aquela vaca já tem uns dez anos, mas ela comanda toda a junta. Aquele animal é esperto.
-Sim, até já vi o filho dele a pastar os bois e os novilhos com as vacas pela Malcavada.- Respondi a medo.
- Aquele caminho foi feito para corças, não para carros.  Não tem muito tempo passavam tantas juntas de bois para cima e para baixo com chama para as padarias, e para atupir nas bananeiras, com canas e varas. E, para cima traziam erva e materiais para as vendas. Tudo tinha um ritmo de água e sol. Um ritmo da vida e das estações. Os relógios eram de sol e lua...
- E como era esse ritmo?
- Era como se todos os homens e animais e até o vento e  a chuva soubessem o seu lugar no tempo e no mundo. Cada coisa a seu tempo. Vês a cabra que trouxeste?
-Sim... -  respondi  de olhar perdido no chão-  ela veio sem me dar trabalho. Parecia que sabia o caminho...
- É isso  mesmo. Os animais sabem o ritmo da vida. Estive do outro lado do mundo. Saí daqui a minha casa era de palha... Uma miséria, mas à noite era o melhor lugar do mundo. Fui para o Curaçãu levado pelo Hinton. Fui trabalhar na petroleira. Estive lá  vinte anos. Era uma vida  diferente, onde havia tempo e hora para tudo. As saudades  matavam-me a alma... A saudade é uma morte viva que te alimenta a dor e estende a distância como a corda que se estende na serra para emolhar a charuga, mas que sabemos que nos vai apertar o choro na garganta e acatamolhar as lágrimas como torrões nos olhos, onde apenas chega os grãos de sal...
A  história estava a agradar-me... Todos os garotos do sítio tinham medo do Valhaco, e,  quando a minha mãe me ordenou, de guita na mão, que amarrasse a cabra para a levar ao cabrito do Sr. João, um nó de temor inutilizou as minhas pernas, mas um "despacha-te que ela está saída" quebrou o meu medo de mais medo e pegando na corta e abalei para o Lombo e amarrei, pelos cornos bem torneados, a chiba.
Entretanto o chibarrinho tomou a cabra.
- Puxa a cabra para fora! - Ordenou com a sabedoria dum patriarca. Está já está pegada, daqui a cinco meses diz-me alguma coisa!- E um sorriso de sabedor aflorou-se na rigidez do rosto.
- Quanto é Sr. João?
- Não é nada. Quando a Encarnação vai buscar água à casa da tua mãe paga alguma coisa? Depois isso é comigo e com o teu pai.
A nossa casa era das poucas que tinha água de pena. Nesse tempo podíamos abrir a boca à correnteza das levadas e saborear a frescura corrente dos canais.
Eu tinha levado algum dinheiro, não sei quanto, mas quando cheguei a casa entreguei-o à minha mãe.
- Obrigado...
Endireitei-me como um homem  do cimo dos meus oito anos, segurei a cordita e  puxei  o animal em direção a saída dos currais, com a cabra a querer ficar, arrastando-a. Puxava, mas ela não vinha.
O Sr. João ria com o meu jeito ou com a falta dele para conduzir a rês.
- "Poe-na" à tu frente e com a ponta da guita bate-lhe nas ancas e ela irá para onde quiseres! Vê!
E não é que  a cabra começou a subir a vereda direitinha e disciplinada, aproveitando cada nesga de terreno que sobrava do lanço da água de rega.
Naquela tarde aprendi a ser condutor de cabras!
Levei a cabra ao  curral, pela vereda das Rochinhas, depois pela do Fundo da Cova e finalmente, pela do Lombo. Estava curioso por ouvir outras história do Coraçau e dos caminho que o Sr. João fazia quando percorria a ilha, a pé, para vender  fazendas às raparigas casadoiras, antes de partir para as Antilhas. Era só esperar  que a cabra preta do avô saísse, ou a da tia Lurdes... Pensava com os meus botões, enquanto os meus pés descalços voavam de volta ao poio onde os outros garotos brincavam com uma bola amarela saída na rifa ao Bicaberto.
Afinal, o Valhaco não era tão má pessoa como o pintavam. O certo é que vivia numa casinha térrea, no fim do sítio, com a Peixinha, como era conhecida a segunda esposa, que nunca lhe dera filhos, mas tinha uma pele branca como a neve, e uma voz de cantora lírica.
Hoje o sítio cresceu e a casa foi muito melhorada, mas sempre que desço a nova estrada do Pardieiro, lembro o cheiro do tabaco e vejo um casaco de pele castanho vestindo a minha memória de menino.
Buzico- garoto  Chibarrinho- cabrito novo  Tomar a cabra - copular  reinar- com apetite sexual

15/12/2013

DAS EIRAS À VILA

http://www.youtube.com/watch?v=IU2KpZ2I2qk


São quatro e meia da manhã.
Os búzios  saltavam na escuridão das madrugadas as encostas das ribeiras e prolongavam-se nas levadas, sem água, enquanto os lençóis se voltam para os pés da cama e uma interior alegria antecipava a Festa. Eram as missas do Parto que começavam bem cedo.
A malta das Eiras começava a encontrar-se um pouco antes do Ribeiro da Mouca e dirigia-se ao Lavadouro que se encontrava um pouco abaixo da saída da vereda das Eiras, no caminho do Janeiro. O grupo ia engrossando e logo abaixo, no Chão da Tasca, já se ouvia as afinações e algum reboliço no Largo de Bailhinho, onde a Vereda do Troca se inicia. Era aí que o ^José Moleiro deixava a "fragonete". Um Peugeot 403, cuja matrícula, se não me engano era MD 42-02. Naquele tempo os carros eram poucos.
Um foguete sinaleiro dizia que os instrumentos estavam afinados e que o brinquinho ia arrancar, caminho do Janeiro abaixo, entre o som do acordeão do Gil da Branca e do Zé do Martinho, a flauta de cana do Maneta, os rajões do Ângelo e do Trinta Reis e as rebecas de cana de quem as quisesse tocar, as castanholas e pinhas e até os calhaus serviam de marcadores de ritmo e de lenitivo na descida sem luz da atual rua do janeiro. Pequenos e grandes, em romaria de fascínio, caminhavam rumo à vila. Rumo à igreja, onde o enorme padre Gabriel, na sua voz de tenor começaria a ladainha em latim. Eu não percebia nada daquilo, mas respondia em coro como o meu pai. Quem estudava Latim? Muito poucos! As escolas eram ainda muito poucas. Quase sempre junto da casa da professora e propriedade da família . Eu estudava no Externato de S. Lourenço, na Terça, outros porém frequentavam escolas públicas em que os rapazes tinhas salas separados das raparigas. Havia a das Levadas, austera como o Estado do país de então, mas o percurso era perigoso, e as rivalidades entre os sítios nada aconselhável. Não que se vivesse em guerra, mas  era sempre bom estar mais perto da família.
Mas regressemos ao folguedo das missas que começavam sempre "Kirie eleisson" e se prolongava até ao Agnus Dei., numa melodia que toda a assembleia acompanhava num atropelo da língua de Cícero, mas que a devoção perdoava. Nos confessionários as filas de penitentes estendia-se ao longo da parede branca das naves laterais, onde figuras de demónios povoavam o teto de madeira, e assobiavam  de cara torcida, apesar do  som harmonioso e agradável do velho e carunchoso  órgão do Côro  encher  o templo de musicalidade festiva.
No fim vinha sempre a canção Missa do Parto, que todos cantavam, mesmo sem saberem o que diziam, mas a festa era tanta, os chocalhos, as castanholas, as sinetas   e o vínculo do desejo do Natal de tal ordem que todos a afinavam na vontade e no ritmo e na ordem natural da alegria que tudo harmoniza e liga.
À porta já estavam os brinquinhos de vários sítios para alegrarem a pacatez da vila e encher os bares  de hoje que na altura não passavam de tascas, sem os pruridos da salubridade, mas que tratavam os seus clientes com muita estima e consideração. Entre um despique e um copo as coisas aqueciam e o frio da manhã não tolhia a originalidade do improviso, havendo sempre uma ou outra mulher , mais afoita, que não se coibia de atirar a sua quadra e de entrar na dança das palavras e do corpo de roda que os vários brinquinhos alargavam.
Todas a s madrugadas os búzios roncavam sonoros pela escuridão das matinas e os foguetes  acordavam os garotos sempre apreciadores  de novas galhofas. O que custava era sair do quentinho da cama, mas, ao contrário de hoje, a luz era mortiça e de petróleo e havia que recolher  precoce  e um cedo erguer fazia crescer...  Depois de atiradas umas mãos de água fria  à cara, queriam era saltar como cabritos ao ritmo do brinquinho, que descia o escuro caminho de pedra,   seguindo um "cezico" de petróleo que o Ligeiro  ou o Galvão levavam, cerimonialmente, como luzeiro.
Durante nove dias a novena à Senhora do Parto acontecia na mesma alegria  e no crescente desejo do que cairia no sapatinho.

14/07/2013

Maria Coelha


   Maria da Carolina, havia quem lhe chamasse da Carrolina, ou Maria Coelha era uma mulher de um outro tempo. Era vizinha, vivia numa casa térrea, a uns cem metros da nossa casa, sombreada por uma enorme figueira castanhal, onde o marido, o Sr. João, moldava o vime em lindos cestos de vindima, de braço, de merenda, em cestas para almoço e gigas de medida e, de nacos de madeira, arredondava, à navalha, disputados piões. Ela era, relativamente, alta para a média das mulheres. Do negro vestir da sua viuvez, transpirava uma forte personalidade que se refletia no acto de sempre andar em contacto com a mãe terra, onde os seus pés, constantemente, se ligavam numa pertinácia de vontade e destino. Os sapatos, feitos à medida, no Nervoso, apenas a incomodavam, quando tinha de ir à vila, ao domingo, ou à cidade uma ou duas vezes no ano.
Naquele tempo a cidade ficava longe. Tão longe como Lisboa! Os horários demoravam mais de duas horas a chegar à capital e, entre as curvas e o ruído, as pessoas sentiam-se num mar de tempestade. Num balançar tão anatural que muitas vezes se perdiam as tripas, e a palidez inundavam a angústia do regresso, que só acontecia ao fim do dia, pelas dezoito horas, com sacos e cestos empoleirados na tejadilho do autocarro, por onde se acedia por uma escadinha, ao ritmo do "vai à caixa," ou do "pode seguir", secundado pelo ritmada fechar das portas,  que, em andar lento, penetrava na noite, lá pela subida do Pináculo e pelas curvas da velha estrada de paralelepípedos de negro basalto, robusto como ela e as mulheres desse tempo. Quando  as luzes iluminavam o  Moinho do Valente, já noite feita, os magotes de garotos exultavam de alegria e perdiam os medos. Tinham esperado  os familiares, entre jogos de distração e espectativas de medo, para os ajudarem a carregar as compras.
Aprendia-se muito cedo a importância da solidariedade entre gerações e a coresponsabilização pela comunidade. Muitos dos fedelhos eram apenas vizinhos que acompanhavam os mais crescidos, mas havia sempre algo para poderem ajudar a carregar, nem que fossem as perguntas sobre esse lugar donde chegavam sempre notícias novas que povoavam as suas cabecinhas de desejos diferentes pois a infância do seu meio vivia dos medos de corgos e ribeiras, das furnas e dos montes de pinheiros habitados por homens malinos, fantasmas, bruxas, feiticeiras, diabos e mafarricos…
O Moinho do Valente era o término da carreira 127 da SAM. O velho moinho pertencia à família dos Pereiras da Terça. O edifício ainda lá está, não sei se ainda funciona. Um pouco adiante, mesmo na apertada curva, onde o caminho velho da Terça desce, fez-se um desvio para a manobra da camionete de longo nariz do Internacional, depois do AEC . Dali, depois de descarregadas as compras, descia-se a vereda do Troca em direção à Cafusa ou  para o sítio do Janeiro, levando-se, nas noites mais escuras de inverno o suzico de petróleo como lampião, por entre as fazendas primorosamente trabalhadas, seguindo-se as veredas mínimas até aos velho caminho de pedras irregulares, por onde desciam as corças, prenhes de mato e lenha, tracionadas pelo suor pingente das testas de homens robustos e pouco dados aoslamento. Os outros passageiros  da zona alta ou os das Eiras, tinham mais sorte. A Levada dos Moinhos servia de percurso. A vereda mais chã e melhor acomodada pelo cuidado contínuo dos levadeiros, tornava a jornada mais suave. Transportavam os sacos de farinha, de açúcar, caixas de óleo… e os cestos vazios que na madrugada tinham carregado galinhas, ovos, ervas de cheiro, verduras, frutos…
A levada chamava-se assim por, ao longo do seu percurso, desde a Madre D’Água, na zona alta de Santa Cruz, até ao sítio do Lugarinho, onde terminava, ter vários moinhos que moíam o grão e as esperanças de muitos lavradores, melhor, das suas esposas, pois eram elas que geralmente lá iam moer o grão e as suas mágoas em dois dedos de conversa, enquanto o moleiro ou moleira retirava a maquia ou a quarta como pagamento. O moinho era o lugar da paciência. Ali tudo tinha o seu ritmo, até os ratos eram molengões, e o gato, paciente como o rodar da grande mó, arrastava gordo e sonolento por entre os sacos e os utensílios da oficina. Vivia-se  ao seu ritmo das  plantações e ali, ao da queda da água pelo combro de encontro às pás movedoras da grande pedra.
Mas voltemos à nossa heroína.
Era vê-la na rega da costeira, onde o pequeno palheiro se fazia notar no colmo renovado, ao lado da velha e doce anoneira, ladeada pelo suculento araçaleiro (araçazeiro) amarelo que fazia as delícias dos garotos nos meses quentes de verão; No talhe certeiro e artístico com que rapava as ervas, com a sua foice  pequena, mas sempre bem picada pelo Borreca. As rodas de parede  dos poios pareciam sebes aparadas e os pés da erva de fora, mantinham-se arredondados como uma arvorezinha  de jardim de Senhor. Ela  alimentava com a erva  a bezerra que criava, mas que não era dela;  Era vê-la carregar os molhos de erva fresca que trazia das rochas, que se estendiam em irregulares socalcos ou em barrancos em direção à Fontinha, ou da zona do Valhaco, onde os poios eram maiores e de paredes artisticamente aprumadas, sempre numa harmonia de dançarina, no alto da cabeça,  e com as mãos livres, onde,  muitas vezes, uma vasilha de zinco com a água ou com a borage (lavagem) se pendurava, e um balde feito duma lata de massa de tomate ou arranjado no picheleiro, com um arame mais grosso, atravessando um canelo de madeira, servindo de suavizador à mão, levava as sêmolas ou o rolão para a bananeira que iria picar para a novilha.
Nos meses de Verão, ali pelas tardes soalheiras de Julho ou nas suas manhãs serenadas, ela cantava reunindo as espigas em canções de ceifa, sempre tristes de tom árabe, mas perfumadas pelos damascos que amarelavam de rubos tons no damasqueiro que oferecia a sua sombra nas horas de maior estio e na algazarra dos piquenos que apanhavam as espigas por entre  os tremoceiros, e os chícharos das rodas de parede onde as uvas começavam a pedir baraço, ou limpavam a estiva que serviria para plantar a rama nova no próximo giro da água. Ela seguia o ritmo da vida.
Logo pela manhã, subia o Lombo a tratar da novilinha, a mondar as leiras, a limpar os cachos de banana, ou ir até ao Moreno apanhar  o feno que deixava estendido a secar. Pelas nove, quando eu ia ao curral das ovelhas deitar-lhe comida, ela já descia  com um molho de charuga para servir de cama à vaquinha.
Ela era uma mulher forte como um carvalho. Dos seus olhos, a sabedoria da vida fazia-se fascínio e doçura, apesar duma vida dura, e o seu lenço preto, sobre as cãs, embora testemunho da sua viuvez libertava-se num sorriso de mulher feliz.
Esta foi a Maria Coelha ou da Carolina que conheci na minha infância.

01/01/2011

Feliz 2011

O ano começou com muita luz e cor.
O céu encheu-se de desejos floridos de rosa verde e dourado.
O mar resplandeceu e os navios apitaram loucos por outros portos.
Eu fiquei a ver  as montanhas lançarem-se em olhares de inveja pelo vai-vem das ondas, ora verdes, ora sangue, ora ouro, como se o primeiro dia da cada ano não fosse único só para os altos montes.
Os copos tocaram-se em brindes espumantes de bolhas e votos de um ano feliz.
Aqui deixo o testemunho desse momento único em cada ano na Madeira.

07/02/2010

como se uma nau de recordações teimasse em não passar .

São dez da manhã.

O sol, subindo a nascente, vem dourando o ondulado mar e, espreguiçando-se, beija as plantas do jardim, orvalhadas ainda do abraço da noite.
Na promenade, idosos e adultos fazem a sua caminhada matinal.
O ar está ameno e o mar batendo nos calhaus, deixa que a brisa se salgue e aromatize de maresia.
Caminho também com o meu companheiro, o Mozart. O cão saltita de contentamento pela grama do relvado e aqui e ali deixa a sua marca ou fareja a de outro canídeo.
Ao fundo, junto ao antigo cais do carvão, as ondas elevam em espuma orações ao céu. O mar está picado. Bem mexido e barulhento este mar. A manhã assemelha-se a uma orquestra só de percussão.
Continuo a minha caminhada, apreciando as flores que aqui e ali, aparecem despreocupadas, na palete do jardim. As palmeiras têm as folhas ressequidas da maresia e do último temporal. As sebes de arbustivas estão esqueléticas. A figueira ergue-se branca e fria sobre as arribas. As buganvílias, apesar da água salgada, têm as suas flores, mas mudou-se-lhes a cor. O espaço apesar de tudo é agradável.
Ao fim da promenade tenho o encontro com os gatos. O Mozart quer cumprimentá-los, aproxima-se a medo e fica expectativo. Os bichanos olham, despreocupadamente, viram as costas e saltam para um banco. O cão late.
Os gatos ficam na deles, alheios ao bater das ondas e às preocupações de quem passa.
Aprecio o novo hotel da cadeia Pestana. Está lindo! Com os maçarocos a florirem timidamente de azul e lilás, altaneiros nos tufos arredondados das suas folhas, espreitando o horizonte distante, que agora, se torna escuro e ameaçador de chuva.
Apreço-me, estico o passo e encurto a trela do cão.
O mar continua batendo, agora com mais força. O vento sopra mais agressivo, e algumas nuvens correm pelo céu pesadas de chuva.
Estou chegando junto ao Lido. O café está aberto.
Entro e peço uma bica.
A um canto, lendo o jornal, está um velho. Cabelo curto, e bem penteado, barba desfeita, rosto alvo e ligeiramente satisfeito. Veste calça azul, camisa azul clara e um casaco de malha grossa azul-escuro. Na mesa tem um chá e uma sandes.
O aroma do café é excelente, forte e quente, quase mulato.
- Aqui está o seu café!
- Obrigado!
Peguei no conjunto e dirigi-me para uma mesa.
- Então como vai? - Perguntou-me o velho.
- Bom dia. - Respondi.
- Sente-se aqui. Faça-me companhia!
- Está bem.
Sentei-me e conversámos, longamente, apesar da ameaça de chuva.
Ouvia-se o bater da ondulação nos contrafortes da piscina, e de vez em quando uma onda mais atrevida espreitava pela vidraça da esplanada.
Falámos de África, da política local e nacional, da globalização, da Madeira antiga, de livros...
O homem lê muito. Muito mesmo.
Falávamos de África. Daquele enorme espaço de liberdade e descoberta e da guerra colonial.
- Da guerra...
A voz prendeu-se na garganta. Os olhos humideceram-se.
Houve um enorme silêncio. Pesado e negro como o céu.
Ficámos algum tempo em silêncio, como se uma nau de recordações teimasse em não passar, escondida atrás do ilhéu.
Eram agora doze e trinta.
Aproximava-se a hora de almoço e o telemóvel tocou.
Uma mensagem: o almoço está pronto.
- Tenho que ir. Até logo...
- Até logo. Não pense que me esqueci dos caderninhos que falámos, há já algum tempo... Disse-me estendendo a mão ossuda e experiente.
Levantei-me.
O seu rosto recuperara da noite africana. Estava mesmo jovial.
Ao virar do portão saudei-o com um levantar de braço e um sorriso.
Ele retribuiu.
Como estava mais fresco o velho soldado.
Fui para casa mais feliz.
Há manhãs em que o céu nos peroliza a alma de dádivas.
Esta foi uma dessas manhãs de pérolas.