São dez da manhã.
O sol, subindo a nascente, vem dourando o ondulado mar e, espreguiçando-se, beija as plantas do jardim, orvalhadas ainda do abraço da noite.
Na promenade, idosos e adultos fazem a sua caminhada matinal.
O ar está ameno e o mar batendo nos calhaus, deixa que a brisa se salgue e aromatize de maresia.
Caminho também com o meu companheiro, o Mozart. O cão saltita de contentamento pela grama do relvado e aqui e ali deixa a sua marca ou fareja a de outro canídeo.
Ao fundo, junto ao antigo cais do carvão, as ondas elevam em espuma orações ao céu. O mar está picado. Bem mexido e barulhento este mar. A manhã assemelha-se a uma orquestra só de percussão.
Continuo a minha caminhada, apreciando as flores que aqui e ali, aparecem despreocupadas, na palete do jardim. As palmeiras têm as folhas ressequidas da maresia e do último temporal. As sebes de arbustivas estão esqueléticas. A figueira ergue-se branca e fria sobre as arribas. As buganvílias, apesar da água salgada, têm as suas flores, mas mudou-se-lhes a cor. O espaço apesar de tudo é agradável.
Ao fim da promenade tenho o encontro com os gatos. O Mozart quer cumprimentá-los, aproxima-se a medo e fica expectativo. Os bichanos olham, despreocupadamente, viram as costas e saltam para um banco. O cão late.
Os gatos ficam na deles, alheios ao bater das ondas e às preocupações de quem passa.
Aprecio o novo hotel da cadeia Pestana. Está lindo! Com os maçarocos a florirem timidamente de azul e lilás, altaneiros nos tufos arredondados das suas folhas, espreitando o horizonte distante, que agora, se torna escuro e ameaçador de chuva.
Apreço-me, estico o passo e encurto a trela do cão.
O mar continua batendo, agora com mais força. O vento sopra mais agressivo, e algumas nuvens correm pelo céu pesadas de chuva.
Estou chegando junto ao Lido. O café está aberto.
Entro e peço uma bica.
A um canto, lendo o jornal, está um velho. Cabelo curto, e bem penteado, barba desfeita, rosto alvo e ligeiramente satisfeito. Veste calça azul, camisa azul clara e um casaco de malha grossa azul-escuro. Na mesa tem um chá e uma sandes.
O aroma do café é excelente, forte e quente, quase mulato.
- Aqui está o seu café!
- Obrigado!
Peguei no conjunto e dirigi-me para uma mesa.
- Então como vai? - Perguntou-me o velho.
- Bom dia. - Respondi.
- Sente-se aqui. Faça-me companhia!
- Está bem.
Sentei-me e conversámos, longamente, apesar da ameaça de chuva.
Ouvia-se o bater da ondulação nos contrafortes da piscina, e de vez em quando uma onda mais atrevida espreitava pela vidraça da esplanada.
Falámos de África, da política local e nacional, da globalização, da Madeira antiga, de livros...
O homem lê muito. Muito mesmo.
Falávamos de África. Daquele enorme espaço de liberdade e descoberta e da guerra colonial.
- Da guerra...
A voz prendeu-se na garganta. Os olhos humideceram-se.
Houve um enorme silêncio. Pesado e negro como o céu.
Ficámos algum tempo em silêncio, como se uma nau de recordações teimasse em não passar, escondida atrás do ilhéu.
Eram agora doze e trinta.
Aproximava-se a hora de almoço e o telemóvel tocou.
Uma mensagem: o almoço está pronto.
- Tenho que ir. Até logo...
- Até logo. Não pense que me esqueci dos caderninhos que falámos, há já algum tempo... Disse-me estendendo a mão ossuda e experiente.
Levantei-me.
O seu rosto recuperara da noite africana. Estava mesmo jovial.
Ao virar do portão saudei-o com um levantar de braço e um sorriso.
Ele retribuiu.
Como estava mais fresco o velho soldado.
Fui para casa mais feliz.
Há manhãs em que o céu nos peroliza a alma de dádivas.
Esta foi uma dessas manhãs de pérolas.