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01/01/2011

Feliz 2011

O ano começou com muita luz e cor.
O céu encheu-se de desejos floridos de rosa verde e dourado.
O mar resplandeceu e os navios apitaram loucos por outros portos.
Eu fiquei a ver  as montanhas lançarem-se em olhares de inveja pelo vai-vem das ondas, ora verdes, ora sangue, ora ouro, como se o primeiro dia da cada ano não fosse único só para os altos montes.
Os copos tocaram-se em brindes espumantes de bolhas e votos de um ano feliz.
Aqui deixo o testemunho desse momento único em cada ano na Madeira.

12/04/2010

AROMA CITADINO

A manhã despontava por detrás do cabeço pelado. Antigamente, na década de setenta do século passado, aqueles montes estavam cobertos de pinheiros que desciam até mais de meia encosta. Hoje sobem as casas quase até ao topo, em cores diversas e estilos díspares. Produto de uma urbanização rica, mas pouco cuidada. O coberto vegetal deu lugar ao coberto de cimento. Algumas quintas acolhem jardins e árvores importadas, palmeiras e relvas que atapetam os canteiros em volta das azuis piscinas.
O sol subiu um pouco e, rubro de cor, afasta as nuvens da escuridão. Os brancos do casario enche-se de ouro e as nuvens algodoadas matizam-se de cores e tonalidades diversas.
O dia está a levantar.
Desço a cidade onde os jacarandás se vestem de roxo, e outras árvores enriquecem a enorme tela de pintor que se abre em forma de concha vieira do mar à serra.
A cidade acordou.
Movimentam-se carros, pessoas, crianças para as creches e escolas.
No mercado o vendedor de peixe atrai os clientes com sua voz rouca e grossa:
- Atum fresquinho da noite. Fresco e barato, até cheira.
Nas escadas do mercado os olheiros apreciam o deambular das caixas de peixe miúdo, os cestos das frutas e os maranhos de legumes. O ar  aromatiza-se de fruta madura. No café da entrada o guloso aroma da carne de vinho e alhos faz nascer água na boca.
É para lá que me dirijo.
-Bom dia.
-Bom dia. Uma chinesa e uma sandes de carne vinho e alhos. Bem aviada!
A moça sorriu. Um sorriso largo e acolhedor. Depois apertou na máquina o café, com um movimento rápido e desembaraçado, a manete e um líquido preto correu em fio espumoso para a xícara larga. Dirigiu-se ao recipiente do pão, tirou de lá um apezinho fresco e com um movimento afinado abriu-o e logo o encheu com a carne suculenta a cheirar a alho e segurelha. De seguida estendeu um alvo guardanapo branco num cestinho de plástico, mas que emita o vime e colocou-mo à  frente:
- Bem aviada, como pediu! - Disse com um maroto piscar de olho.
Dum saltou retirou a chávena da máquina do café, adicionou o leite e entregou-ma.
Eu já mordia a sandes com vontade canina.
Adicionei açúcar e lanço o café extasiante à boca.
Lá fora, reparo, o movimento aumentou. Uma guia, com uma estrelícia conduz os turistas ao mercado, explicando a sua história e referindo os acontecimentos de Fevereiro último. A esplanada está cheia. As árvores ganharam cor com a chegada da Primavera.
Encostado à vedação verde que separa o passeio da estrada está um homem. Barba feita, cabelo aparado e penteado, camisa branca fresca, calça de ganga engomada, sapato preto. Sobre o ombro esquerdo têm um casaco azul de malha. Lê o jornal e sorri.
É o velho soldado. Agora parece ter menos vinte anos, apesar da cabeça branca.
Chamei-o.
Ele desprega os olhos das letras. Olha para todos os lados, tentando encontram a origem do seu nome.
Aceno com o braço levantado que logo é localizado.
Ele sorri. Desencosta-se do varandim, atravessa as mesas e cadeiras da esplanada e entra no estreito espaço do café.
-Bom dia.
-Bom dia. Então já tomou café?
-Hoje não, estava a ler aqui o jornal...
-Então o que vai tomar?
-Pode ser um galão - Disse entre o exclamativo e o interrogativo.
-Só, não deseja comer nada? Esta sandes de vinha de alhos está divina!
-Não, carne de porco só se for criado em casa. Essa carne é mole, é criada à pressão. Perdeu o sabor. Um papo-seco com manteiga.
- Veio cedo para a cidade!
- Sabe esta foi uma daquelas noite...não conseguia dormir. Só via clarões, vultos a esconder-se dentro de valas e casamatas. Cheiro a carne despedaçada.... Um inferno.
- Foi um sonho terrível...
- Era o inferno. Acordei em angústia, faltava-me o ar... Logo saltei da cama, tomei um banho e desci. Deveriam ser umas cinco e meia.
- Tão cedo!
- A cidade é bonita a essa hora. Como é bom vê-la a lavar a cara, a pentear-se, a ganhar rosas no rosto, depois perfuma-se com os primeiros aromas humanos que a povoam, ainda fresca, respira-se a maresia.
- Acredito que sim...
Paguei e abandonámos o café.
Cá fora a cidade parecia ter enlouquecido. Magotes informes de pessoas tentavam atravessar a rua, os carros corriam ferozes, rua acima, tentando apanhar o verde...
-Tá a ver esta cidade? De manhã ela é calma, como um mar de azeite.
- A cidade parece doida de vida.Tem pressa de viver.
- Vou até um lugar mais calmo acabar de ler o jornal. Obrigado.
- De nada, até logo.
O homem enfiou o jornal debaixo do braço e rompeu, por entre os vendedores e distribuidores, em direcção à zona do Liceu.
Ainda olhei, mas a multidão engolira-o.
As montanhas azulavam-se lá no alto e o sol começava a ficar quente.
Caminhei por entre a sombra das ruas, absorto, enquanto a luz caía lá do alto breve e pura.
A cidade espreguiçou-se e nos jardins floresceram sorrisos de muitas cores e uma nova vida, renovada, após a enxurrada, encheu a cidade dum arco-íris.

25/06/2009

REENCONTRO

São oito e pouco da manhã. O sol espreguiça-se, dourando a fachada branca da Igreja do Colégio. Os santos dos seus nichos acordam, acariciados pelos poucos pombos que povoam a pachorrenta Praça do Município. Uma brisa ligeira penteia as folhas verdes das árvores viçosas de vida e cor. De quando em vez uma flor de fogo tomba sobre o chão de calçada portuguesa e logo é esmagada pela indiferença sonolenta dos passeantes.
É uma manhã de Junho. Quinta-feira. Os carros rolam molengamente, sem pressas e sem apitos enfurecidos, nos paralelepípedos de basalto, talhados, há muitos anos, pelos experientes canteiros da ilha. Estas ruas deveriam ser consideradas património da cidade e por isso conservadas. Não precisamos de mais áreas negras de alcatrão poluente...
Ao fundo, no lado direito da Praça está uma enorme árvore, colorida de belas flores. Vistosas e em cachopas de fogo, pendentes, como arrecadas, dos ramos fortes que se ligam a um enorme tronco, grosso, negro e esguio de meio a cima, que se eleva para o céu em sombra de verdura fresca, e se enterra na simplicidade duma caldeira minúscula, bem definida pela calçada que pavimenta a rua. Mas rodeada de outras plantas.
Debaixo daquela, na frescura alva dos pequenos arbustos , encosta-se um típico banco de jardim, pintado de verde escuro: Duas tábuas arredondadas nas pontas, assentes num cavalete de ferro forjado, também pintado de verde, mas onde são bem visíveis as nervuras que lhe dão graça.
No sino da Sé a badalada assinala as oito e trinta. Sentado no banco está um idoso, jornal bem aberto, não se lhe vê o rosto, mas àquela badalada, como se o papel fosse um leque, afasta-o e rodando o braço espreita os ponteiros do relógio. Reconheço aquele gesto.
Junto ao tronco da árvore, mas entre as plantinhas menores que preenchem a caldeira de brancura, está um saco de supermercado, cheios de diários e revistas, e um livro de capa azulada ou verde, na lateral.
O jornal que lê é o do dia. Está aberto nas páginas dos artigos de fundo.
O cabelo está bem penteado, a barba desfeita, camisa bem passada, calça limpa, mãos bem tratadas, mas os seus olhos continuam iguais: desiludidos e tristes, muito próximos das letras, como se aquelas fossem fugir do papel, mas muito ausentes do mundo. É um leitor esforçado e interessado no texto. Não liga a quem passa, nem ao homem da vassoura que espalha poeira, num arrastado rrrrchchchc, mas junta uma quantidade de flores iguais à farda que veste, em pequenos montes, que depois apanha com uma pá e atira no plástico preto dum saco.
Um cão aproximou-se e ele afagou-lhe o pêlo. O animal sorriu, pousando a cabeça no seu joelho. O homem murmurou-lhe algo de auspicioso, porque a cauda moveu-se de contente e logo uma pata forte se estendeu em direcção à mão do velho.
Segui o meu destino, descendo a Rua dos Ferreiros em direcção ao Bazar do Povo. Debaixo dum til, vendiam-se redondas e vermelhas cerejas, abrunhos matizados e aromáticos e umas perinhas pequeninas de S. João. Os damascos e os pêssegos aromatizavam o espaço de cor e aveludada penugem.
Era preciso despachar-me e pagar a água de rega da levada dos Piornais. Todos os anos os heréus contribuem para a manutenção daquele bem, e conservação do canal, fundamental para a agricultura.
O sol subira. O céu estava azul iluminado. As ruas eram, agora, um carreiro de formigas humanas, apressadas e apreçadas, indiferentes, mudas e muitas sem vontade de sorrir.
Eu estava feliz.
O Soldado Leitor continuava vivo e as suas leituras caminhavam pela cidade.