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07/03/2010

Bordando a noite de solidão

As nuvens cobriam as ameias da cidade, lá no alto, como se dum fumo pesado de destruição a noite renascesse, igual aos dias anteriores. Não chovia. Não fazia frio. Apenas um beijo zéfiro, atrevido, movia as folhas endurecidas das acácias e doa  tis.
Alguns carros passavam, lentos e atordoados, como se algo os tivesse surpreendido, e a marcha lenta, por vezes abrandava mais, como que tomada por algo inexplicável.
Ao fundo da rua, junto a um tronco de acácia, brilhou vermelho. Um cigarro atiçava a noite de cor. Um corpo de homem engrossava a escuridão do tronco  onde se encostara.
Desço a rua. Levo o cão, alheio ao tempo, à noite, à desgraça. Ele é feliz, e é sempre mais feliz, quando sai e saltita, rua abaixo, marcando território, farejando as esquinas, as ervas...
O cão é feliz porque se contenta em ser apenas cão.
O homem mantém-se no mesmo local, cigarro na mão, abaixo da cintura, ombro esquerdo apoiado à árvore, olhar cansado, semblante enrugado, barba por desfazer, camisola escura, calça de ganga, sapatilhas claras. Esboça um sorriso ao ver-me chegar. Atira um assobio ao cão, que logo corre e, abanando a cauda, cumprimenta, satisfeito, o soldado, como um amigo que encontra um amigo.
Ele baixou-se e passou a mão pelo pêlo do animal. Acaricia-o com meiguice.
- Boa noite. Então  passeando?
- Sim, a voltinha higiénica de fim de dia.
- Também é preciso, faz muito bem este ar da noite!...
O cão continuava contente por aquele encontro. Mexia-se, trepava pela perna do velho soldado. Levantava a patinha e raspava nas calças, pedindo atenção.
- Este cão é muito meigo.
-Sim é muito sociável...
- Tem um pêlo muito fofo. Tem sorte. Ele deve gostar quito de si!...
- Sim, sobretudo quando saio com ele.
E continuou fazendo miminhos ao animal que os retribuía.
- O tempo está a melhorar? -Perguntei.
-Sim, já não era sem tempo... Depois de tanta desgraça... Penso que vamos ter uma semaninha de sol. Houve mudança de lua. Aproxima-se a primavera.
-Pois, acho que as terras estão muito fias e encharcadas. Ainda nem podei a vinha, nem fiz a caseira de aboboreiras...
- Já vai sendo hora, mas se preocupe, há tempo para tudo!
- Fiz tenção de avançar no meu passeio. Ele acompanhou-me até o outro lado da rua. Passos lentos e bem medidos, o tronco curvado, o rosto ligeiramente iluminado por um sorriso que se escapou da sua solidão.
- Vá continuar o seu passeio. Eu fico aqui. – Ordenou-me, sentando-se no murinho da RDP.
O seu olhar perdeu-se, para lá da rede verde escura da escola dos Ilhéus e pareceu-me pousar na planta, em forma de leque, do pequeno jardim. Quem sabe se aquela imagem lhe trazia recordações de África?
Eu avancei uns passos, mas o cão ficou para trás, junto do velho soldado, como se esperasse dele “um até amanhã”.
-Chame por ele!
Ouvi a sua voz cansada perder-se no silêncio da rua.
Apliquei o meu assobio, e logo o Mozart veio ter comigo, de cabeça baixa, reprovando o meu acto de deixar na solidão da rua o velho soldado.
O céu estava clareando, e farrapos azuis bordavam-se de estrelas.
O velho soldado ficou, ali, bordando a noite da solidão.

21/02/2010

A noite estava fresca.
Descia a rua despreocupado do tempo.
O céu apesar de limpo deixava a lua, em crescente, sorrir coroada de nebulosa tiara. Estava ligeiramente fresco. As serras, lá no alto, estiveram branquinhas e solarengas durante grande parte do dia.
O cão saltitava à minha frente, farejando todos os cantos e troncos das jovens árvores. Algumas folhas resistiam à breve brisa que passava, o ar era fresco e aromático. Daquele aroma de terra muito molhada.
De repente um melro de bico amarelo cortou a rua, num voo rasante de caça, e entre a ramagem escura da quinta escondeu-se em chilreio atrevido.
Ao fundo da rua descortinava-se um vulto de homem, curvo e fumegantemente pensativo, sobre a mão esquerda apoiava o queixo magro, barbeado, vincado pela velhice precoce, ou pela angústia que nenhum psicólogo explica sem falar em trauma de guerra.
O cão dava força ao fio da trela, louco por marcar novos território. O homem baixou-se, abandonada aquela posição rodiana de pensador e, usando a sua perícia de assobiador, atirou ao animal um silvo de atenção. O cão parou, voltou-se, olhou para mim, depois para ele, e aproximando deixou-se afagar.
Aproximei-me e cumprimentei:
- Boa noite! Então, ainda por aqui.
Ele esqueceu a pergunta e disse:
- Está fresco, gosto das tardinhas frescas, sinto o frio da neve lá dos montes. ergueu os olhos como se os visse por entre o negrume que como pano de palco escondia o cenário.
- Esta tarde ainda se viam uns cumes brancos.
-E se olhar para a lua, ela anuncia chuva. Vê aquela coroa? Aquilo não é bom!
Não liguei àquele augúrio. O cão continuava feliz com as carícias do velho soldado e deitando a língua de fora, agradecida, ou estendia a mão, em busca de mais afagos.
- É melhor recolher-se, parece que vai chover.
-Sim e da boa, pode ter a certeza, mas estou esperando uma pessoa. Não falta muito e vou para casa.
O cão deixou-o e continuou marcando espaço territorial, enquanto eu segui o meu passeio.
Regressei a casa, passada uma hora, já chuviscava, quando introduzi a chave na porta do edifício.
Altas horas da noite, acordei. A chuva batia como pedras na vidraça da varanda.
- O soldado, também percebia de meteorologia. - Disse para mim.
Depois...
Depois foi o que se seguiu e abriu muitos telejornais pelo mundo.