A chuva batia forte.
A manhã era de bruma e cinzentamente o vento polvilhava as bátegas em esvoaçantes aguaceiros que se colavam à roupa e às superfícies mais incautas. O velho soldado, segurando um desengonçado chapéu tentava manter enxuta a cabeça, mas a ventania era bravia e nenhum dos dois resistiu.
O rosto inbarbeado, esquálido e magro, triste e desesperançado, estava gotejado de pérolas cristalinas que se penduravam nos pelos alvos da barba. Do nariz aquilino escorria uma enorme gota, e nos olhos perdidos do castanho das picadas, duas quentes lágrimas solidarizavam-se com as gotas vergastantes e grossas que agora, a prumo, feriam a rua.
A roupa colara-se ao corpo. Trôpego e cansado, mais arrastado pela nortada do que por vontade própria, acabou se recolhendo debaixo da sacada do prédio, ao fim da rua. Agora um ventinho frio canalizava-se da Avenida Luís de Camões, subindo a rampa em derrapagem de aceleramento e, espremido sob a coberta da rua e as paredes do prédio, parecia ter mais força.
- Esta boca de ar é forte e doentia. Disse escondendo-se na antepara de um pilar.
Realmente, ali o vento, mesmo em dia normais de brisa bonançosa, parece estar sempre de mau humor.
Pegou no guarda-chuva, ajeitou-o com cuidado e verificou que tinha duas ou três baleias (vergas) partidas. Depois olhou para a área abrigada onde me encontrava e exclamou:
- Estes materiais vindos da China, não valem nada. Antigamente havia uns tantos chapeleiros que os faziam, moldando à mão o suporte em fero e o cabo em madeira e depois aproveitavam as barbatanas dos cachalotes para fazerem as suspensões do tecido que era bem encerado. Hoje, são baratos, mas não servem para nada.
- Não me lembro de nenhum fabricante de chapéus do Funchal. Se calhar sou muito novo! - disse na esperança de manter acesa alguma distracção
- Sim havia vários, na zona do mercado e na rua da Alfandega. Até havia um amola tesouras que os consertava com arame fininho e uns alicates que o ferreiro da Carne Azeda fez de propósito para isso. Lembro que quando sentei praça, já lá vão uns quarenta anos, tinha uns vinte...
As palavras pareceram morrer-lhe nos lábios. Os olhos fecharam-se com força, como tentando recuperar o ecrã da memória.
- ...ainda se caçavam baleias na Madeira e faziam-se muitos objectos do dia a dia com os ossos e barbatanas que até eram usadas para a roupa interior de senhora.
- Sim lembro-me do meu avô Domingos, que era tanoeiro, ter entre as suas ferramentas, lá numa caixa, um objecto branco, meio curvo, que dizia ser um dente de baleia, com o qual pretendia fazer um copo para andar pendurado ao garrafão, servindo assim os homens quando fossem tratar da terra. Depois embarcou para o Brasil com a avó e os meus tios mais novos e nunca mais soube do dente!
- Sim fazia-se copos também dos chifres de novilhos e vacas, até de cabra. Antigamente aproveitava-se tudo. Vêm falar de ecologia e reciclagem. Estas gerações que nasceram no pós revolução, sabem lá o que é aproveitar e reciclar...
- Se não sabem a culpa é sua e minha que os educámos!
- Sim, mas parece que só aprenderam o que era marginal... já viu o que se passa no Parlamento, nas escolas, na rua, nos autocarros... Não se respeita ninguém. Nem velhos, nem senhoras nem crianças.
- Sim, mas o Parlamento é o centro do debate político.
- Sim, mas o Parlamento é o centro do debate político.
-Qual debate político? Eles só debatem os seus interesses. Nem têm respeito. Como pode o povo tê-los como referência de conduta? Deixe-me mas é ir andando que estiou.
E pondo-se a caminho, olhou o céu e partiu para a farmácia que ficava no outro bloco com vista para a Avenida. A vida política não era assunto que lhe merecia pachorra.
Eu aproveitei e desci ao centro da cidade.
O dia prometia ser escuro e regado de tristeza.