Hoje é quinta-feira, entro ao serviço às catorze.
Levantei-me mais tarde, já o sol namora as janelas dos apartamentos e qual marialva ilumina de encantamentos as floridas acácias da rua.
Desço e vou ao café. Encontro marcado. Cavaqueira sobre o estado do País e da Madeira com o meu amigo de todas as quintas e outros dias do ano.
Hoje o tema é a capa do DN.
O café estava óptimo e a conversa também. Da esplanada do café podemos admirar o mar que a demolição do Savoy deixou mais perto e azul.
O tempo passa e pretendo caminhar com calma até à baixa da cidade. As ruas têm muito para ser apreciado.
-Até logo!
- Ou até para a semana. Respondeu-me o Gato com um sorriso maroto.
- Ité um dia destes! Disse pondo-me a caminho.
O sol dardejava. A relva do jardim estava esfitada, algumas plantas meio murchas, outras mesmo moribundas de sede. Numa roseira um botão raquítico esforçava-se por ser rosa. No passeio da rua, frondosas copas de verde, sustinham um enorme tapete de bordadas flores. As acácias estavam mais bonitas que nunca.
A sua sombra flamejante espalhava um odor carmim na brisa leve que corria. As flores indezas, eram varridas por uma empregada camarária. O seu ar irritadiço era sabedor que teria mais trabalho durante os próximos dias.
Caminho observando as flores dos cardeais das sebes, o arroxeado dos tardios jacarandás, as corriolas e buganvílias que se entrelaçam nas vedações ou caem das paredes, os tis enfezados que teimam em ser árvores. A manhã está agradável, apesar do capacete que cobre a encosta.
Ao fundo noto uma figura conhecida. Está sentado no passeio, encostado ao tronco da acácia mais florida. Tem algo na mão e escreve.
Mudo do passeio sul para o norte. Caminho nas calmas. Observo que algumas acácias têm aqui e ali pequenos tufos a abrir. Estou perto.
Ele mexeu-se como se acomodando ao duro assento. Não reparou em mim.
- Bom dia! Disse, ao chegar a menos de um metro dele. Hoje chegou mais cedo.
- Deus nos dê! Respondeu e pousou o que tinha na mão.
Aquele cumprimento fez-me lembrar o Tio António Maneirinha, que sempre respondia às pessoas daquela fórmula. Um dia destes faço uma crónica sobre ele.
- Estava escrevendo alguma coisa?
-Era um poema …
-Voltou a escrever? Ainda bem, é um bom modo de passar o tempo.
- Não, como lhe tinha prometido tenho aqui o caderninho com alguns escritos, não sei se são poemas.
- Estou certo que serão! Disse convictamente
-Quer ler este? Perguntou-me estendendo uma folha de papel que estava solta no caderno
Peguei na folha e reparei que era um poema, falava de uma perda e situava o facto em Novembro.
-Foi escrito numa tardinha, em Luanda. Acrescentou antes de ter acabado de lê-lo.
-Fala de um desencontro…
- Sim foi mesmo um grande desencontro. Tinha tudo para dar certo…
Os olhos azuis aquaram-se e as praias há muito sem marés tiveram -nas vivas e uma lágrima correu pela face barbeada de dor antiga do soldado. As costas ossudas da mão, como remo de pescador, logo as secaram. Mas a voz embargou-se-lhe na garganta:
- Foi realmente uma tarde triste aquela. O pai dela não deixou… Eu bem esperei.
-Deve ter sido doloroso!
- Foi, mas já passou. Olhe, agora tenho que ir. O almoço está pronto e a minha irmã não gosta de esperar.
Levantou. Só então reparei que estava descalço.
- Então não calça os sapatos?
- Não! Preciso descarregar as energias negativas. Faz-me bem sentir o chão. O senhor deveria andar descalço. Ajuda a emagrecer e activa todos os órgãos do corpo. É muito bom.
- Já li algures sobre isso. Não quer o seu poema?
-Não. Fique com ele e com o caderno. São para si.
- Obrigado!
Debaixo das acácias floridas estendia-se um volátil aroma carmim, o soldado caminhou no meio dele e sentiu o calor do passeio quente que lhe sugaram toda a negatividade da memória. Fiquei folheando o caderno encostado à acácia. Estava absorto quando ouvi:
-Até logo. À tarde falamos melhor. - Disse erguendo o braço direito em aceno.
O velho soldado entrava no estreito bêco a caminho do almoço. Lembrei-me, então, de usar o telemóvel e tirar uma foto à linda acácia onde nos encontrámos.
A manhã tinha dado lugar à tarde. Abiquei-me a caminho do centro da cidade
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